segunda-feira, 15 de junho de 2009

Troca de dados com Suíça entra em vigor

Marcelo Ninio

Genebra, Suíça (FolhaNews) Depois de cinco anos de pendências, finalmente entrará em vigor no dia 27 de julho o acordo de cooperação jurídica penal entre Brasil e Suíça, cujo objetivo é facilitar a troca de informações sobre suspeitos de crimes financeiros e corrupção.

A esperança das autoridades brasileiras é que o acordo agilize a localização de contas em bancos suíços com somas oriundas de atividades criminosas, e sua restituição. O tratado, assinado em 2004, não inclui casos de evasão fiscal. Ainda que reconheçam valor jurídico e força política no acordo, alguns especialistas alertam que restarão várias brechas na Suíça para que os acusados provoquem atrasos na troca de informações.

A última pendência para a entrada em vigor do tratado era um veto do STF (Supremo Tribunal Federal), que foi removido há dois meses.

No ano passado, o ministro Marco Aurélio Mello suspendera o cumprimento de carta rogatória na qual o Ministério Público da Suíça pedia dados sobre o escândalo conhecido como "propinoduto", que envolveu auditores e fiscais.

Mello barrou a solicitação por entender que ela deveria ter sido feita pela Justiça Suíça, e não pelo MP. Mas recuou ante liminar do Ministério Público Federal, que alertava para o risco de que a falta de cooperação colocava em risco o bloqueio na Suíça dos recursos desviados pelo "propinoduto". Nas investigações sobre o escândalo foi encontrada uma conta na Suíça com US$ 36 milhões, que teriam sido desviados pelos fiscais e auditores.

Decisão do Judiciário brasileiro determinou o bloqueio da conta, o que foi cumprido pelo MP suíço. Para que o dinheiro possa ser restituído, segundo a lei da Suíça, todos os recursos devem ser esgotados no Brasil. Para o ex-deputado suíço Jean Ziegler, que escreveu livros famosos e polêmicos sobre a lavagem de dinheiro no país, a entrada em vigor do acordo é "uma boa notícia", já que simplifica os procedimentos e cria um compromisso político para que os pedidos de cooperação não se arrastem.

Ele dá como exemplo o caso dos recursos públicos que o deputado federal Paulo Maluf teria desviado para bancos na Suíça quando era prefeito de São Paulo. "Se esse acordo estivesse em vigor, ele não teria podido transferir o dinheiro para outros paraísos fiscais" diz Ziegler. Maluf diz que nunca teve dinheiro no exterior. Apesar disso, Ziegler mantém-se cético sobre a agilização que esse acordo dará na tramitação dos pedidos do Brasil à Suíça. "O acordo ajuda porque passa a existir uma lei que prevê a troca de dados. O problema é a execução", diz Ziegler, lembrando que a Suíça demonstrou falta de vontade política no passado em cooperar. "Espero que, com o Brasil, uma potência econômica emergente que tem como retaliar, a Suíça tenha o cuidado para não atrasar os pedidos." Com o acordo, o caminho jurídico para a troca de informações será abreviado de forma significativa, passando a ser um procedimento direto entre os ministérios da Justiça, sem ter que passar pelos canais diplomáticos, como ocorre hoje.

O próximo passo é a negociação de um acordo de bitributação, que está em estágio inicial, para incluir troca de dados entre Brasil e Suíça também em casos de evasão fiscal. Sob intensa pressão internacional, o governo suíço admitiu fazer concessões em seu polêmico sistema de sigilo bancário, o que já resultou em acordos de cooperação com três países.



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Fonte:Agência Folha

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